sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Opereta Antropofágica – Por Oswald de Andrade.

Montagem teatral: Boêmios
Montagem: Grupo de Teatro Universitário (GTU TARDE).
Autor: Oswald de Andrade – Escritor, ensaísta e dramaturgo BRASILEIRO[1].
Diletos, selvagens tupiniquins, voltei para analisar a atual conjuntura do Pau-Brasil. Nesta terra onde nem o sabiá gosta mais de cantar, rogo que um meteoro termine logo este Brasil colonizado. Voltemos para “idade de ouro” da não colonização, com sua própria linguagem e cultura. Porém, caso o dito meteoro não caia, tiremos a roupa! De fora, deixemos apenas o carnaval, a buzanfã e a boemia – a alegria é a prova dos nove! Mas, caso Deus não permita, façamos Cristo nascer na Bahia, e a mãe dele em Belém do Grão-Pará. Porque somos fortes e vingativos como o pirarucu ou boitatá.
Senhoras e senhores, fomos enganados! Nossa independência ainda não foi proclamada! Nem em Ipiranga; e muito menos em Atalaia. Se tudo isso persistir, selvagens tupiniquins, tomemos injeção de antropofagia! Contra todos os importadores de consciência enlatada. Falaremos do que é nosso por direito. Uma nova revolução instauraremos – O mundo não datado. Não rubricado! Sem Napoleão, César, Aristóteles, Temer, Paulo Chaves e Zenaldo. Caminhemos... Todavia, se tudo der errado, sejamos nacionalistas zombeteiros! Apesar deste manifesto, não seremos xenófobos e muito menos adeptos a xenofilia, seremos antropofágicos! Comeremos tudo o que nos foi imposto e faremos do nosso jeito apimentado.
Povo pentacampeão, chega de tentar entender ciência política, nossa história já é cheia de mentiras. Até o fazer artístico é recheado de invencionice. Disseram que o tal do Nelson Rodrigues foi o precursor do modernismo nessa terra de “ordem e progresso”... COF, COF, COF... Que cinismo! Com certeza não leram minhas dramaturgias: “O Rei da Vela” ou “O Homem e o Cavalo” escrito dez anos antes do “Vestido de noiva” do tal cretino “revolucionário”. Mas me digam: Quem liga? Logo aqui, no país do bala(PEI)-CU-Baco...
Me refiro, neste momento, aos preguiçosos fazedores de teatro do Brasil. Fomos catequizados por Stanislavsk, Brecht, Grotowski, Tchekhov, Sófocles, Genet, Shaskpeare e tantos outros. Mas não damos importância para Boal, Millor, Suassuna, Guarnieri, Dias Gomes, Nelson, Nazareno Tourinho, este que vos escreve e tantos outros pobres miseráveis contemporâneos e não famosos dos livros literários. Portanto, sejamos contra as sublimações antagônicas trazidas nas caravelas! Mas, caso não aderir a esta rogatória, que nos mostre um bom entendimento para sua história. Transforme “Édipo” em anarquista, “As Três Irmãs” em feministas, “Antígona” na rainha louca brasileira, façam um “Romeu” transviado e uma “Julieta” Transformista! Chega de eurocentrismo e todos os sufixos que vem de FORA! Falaremos da trivialidade brasileira e de nossa (não) sabedoria! Sim, isso também é necessário na terra do sarcasmo! Nesta perspectiva, precisamos fugir dos estados tediosos. Contra as escleroses ocidentais. Contra os conservatórios e o tédio especulativo. Precisamos de um novo gênero teatral – O DEBOCHISMO.
Precisamos votar não, também, ao “Dolarcentrismo”! Não precisamos de Hollywood! Tupy or not tupy, that is the question... Broadway? Só se for no teatro operístico. Ali, o money rola solto nas ceroulas dos assaltantes de colarinho. Contudo, se o fizer espelhado no tio Sam, corte as pernas, os braços e cerebelos, devore e beba água não potável (pode ser da baia do Guajará, mesmo) e traga para nossa atualidade Tupiniquim.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju[2]
Foi o que pude perceber no espetáculo “Boêmios”, inspirado no musical americano “Rent”. A direção e atuantes reformulam a história para o presente, e os fazem a partir da nossa língua portuguesa (poderia ser tupi, ninguém é perfeito) e colocam temas atuais a partir do signo imagético belenense. Este, sem dúvida, é o maior trunfo de “Boêmios”. O musical – Que musical coisa nenhuma... Opereta antropofágica! – nos revela um grupo de oito jovens abordando os temas: AIDS, miséria, drogas, homossexualidade, desemprego e relacionamentos entre os jovens da contemporaneidade. Com um teor simples na abordagem dos mesmos, mas não deixando que a peça se torne planfetária. Eles apenas narram as mazelas – os jovens que assistem podem se ver no papel dos atuantes.
Antes de tudo, eu gostaria de parabenizar a garra em fazer um teatro praticamente impossível em pouco tempo de ensaios e sem recursos financeiros para a grandiosidade que se pede. É um tiro nos culhões! Mas a juventude liga para isso? Esses questionamentos são coisas de velhos feitores de teatro. COF, COF, COF... Que dependem de recursos para montar uma peça que não precisa nem de cenário. A opereta “Boêmios” é um grande desafio para a direção e elenco, primeiro porque usaram o corredor do teatro Cláudio Barradas para a encenação, isso são quase uns 30 metros. Segundo: não ter grana para usar microfones de lapela para todos os atuantes. Terceiro: o pouco tempo de ensaio para um espetáculo de duas horas de duração. Quarto: não tiveram tempo para ensaiar com a iluminação, sonoplastia, adereços e o próprio palco da narrativa. Isso é um tiro no pé! Culpa da direção? Não! Culpa de um sistema que faz os artistas e fazedores de teatro montarem espetáculos na marra, porque caso contrário, não se faz teatro. Haja vista que não temos incentivos financeiros para montagem. Tem de se ter CORAGEM!
Coragem que não falta nas atuações que corroboram no carismático suporte cênico da personagem Maureen – destacando-se pela energia ferina e maravilhoso jogo com os espectadores. Um dos pontos altos da peça. Mais a boa atuação do inquieto músico Roger e a equivalência na vigorosa composição de personagem e de voz de Mimi Marques – apenas cuidado para que na continuação do espetáculo a vela não se apague. Além da feroz espontaneidade de Joanne e seu timbre retumbante, aliada a mimese corpórea agoniante do atuante “Aracy da Top Therm’. No mais, a sincronia do elenco, embora favorecendo mais um ou outro personagem dá QUASE conta das duas horas de espetáculo. Sobre iluminação e problemas técnicos eu não posso analisar, e seria escrotice de minha parte falar sobre a mesma, mormente porque fui assistir o último ensaio aberto ao público, e nada estava afinado – NA-DA! Apenas a boa cenografia que atende à funcionalidade do que se pretende, aliada ao colorido dos figurinos. Obviamente, muito se tem que melhorar em “Boêmios” mas isso não tira o brilho do mesmo. Aliás, o espetáculo faz um trabalho social nas temáticas supracitadas, em apenas duas horas, onde o governo no ano de 2017 não deu conta (essa nova). Portanto, a adaptação do “dolarcentrismo hollywoodiano”, surte um efeito positivo. É disso que necessitamos – Antropofagismo!
Para encerrar este manifesto, preciso explanar sobre os últimos acontecimentos, isto é, as manifestações de ódio e violência marcadamente conservadoras e supostamente defensoras dos “bons costumes”, direcionadas aos artistas e fazedores de teatro tupiniquins. Parece-me que estão nos encaminhando para uma nova Auschwitz ideologizada. Neste caso, campo de concentração de inculturas. Muito me assusta, no país onde a liberação da libido é permitida nos seus trezentos e sessenta e cinco dias carnavalizados, não se pode mais mostrar o peito e o rabo. Seria o pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa sedentária? Acho que podem me responder os vigilantes, aqueles que nem se quer vão ao teatro ou em outras formas artísticas. Para estes, minha contribuição: vão para casa descascar mangas simbólicas e joguem as Chaves fora – FORA! Porque precisamos de anarquismo para sobrevivência! Repito, fiquemos todos nus! Voltemos a ser indígenas! Contra, também a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições... Aqui não! É preciso estar atento, antropófago e forte! Tupy or not tupy, that is the question?!
08 de dezembro de 2017.
Ficha Técnica:
Montagem Teatral: 
Boêmios
Elenco:
Alice Maria, Andrey Jandison, Bianca Rolim, Danielle Oliveira, Felipe Cordeiro, Felipe Fernandes, Joyse Carvalho, Julya Campelo, Junior Campos, Luciana Silva, Matheus
Amorim, Matheus Gomes, Priscila Ribeiro, Raíssa Gama, Vanessa Lisboa, Victória Aben-Athar, Yuri Warris.
Direção:
André Launé
Preparação de Elenco:
Miller Alcântara
Preparação Vocal:
Mauro Coutinho
Coreografias:
Madson Santos
Produção:
Raíssa Gama e Danielle Cascaes
Fotografia:
Danielle Cascaes
Figurino:
Thais Squires





[1] Raphael Andrade: Ator e graduando em licenciatura em teatro – e inserções do manifesto antropófago de Oswald de Andrade.
[2] Alusão irônica a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Jarry nasceu aqui! – Ou da Impossibilidade da Fabulação em Tempos de MBL – Por Edson Fernando

Montagem Teatral: I(MUNDO) UBU.
Montagem: Grupo Imundas
Autor da Crítica: Edson Fernando – Ator e diretor teatral; Coordenador do projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Manifesto
Suspendam os filtros poéticos, cancelem as suavizações estéticas, as metáforas bem elaboradas, os versos rimados, a sofisticação dramatúrgica, o requinte literário, o apuro das unidades de ação... Conspirem contra os roteiros estabelecidos em atos, prólogos, epílogos, cenas, entreatos... Enforquem as personagens estabelecidas e polidas por um psicologismo empático e catártico. Cantem sem o compromisso da nota certa, da melodia harmônica ou da voz afinada. Gritos são bem vindos, assim como as palavras chulas, as gírias, o “Caralho”, a “Buceta”, o “Cu” e toda sorte de palavrões sórdidos. Devolvam o pudor aos demagogos e moralistas (?) de plantão, para que eles se envenenem com suas próprias setas pudicas – vide os escândalos de pedofilia envolvendo o clero da Igreja Católica, acobertado pelo Vaticano, ou a voracidade financeira dos pastores das igrejas neopentecostais, pra citar apenas alguns. Foda-se os cânones e gêneros literários. Interrompam o fluxo natural das narrativas, dos grandes ou pequenos acontecimentos a pretexto de nada fazer, de nada comentar, de nada planejar, de nada sonhar, de nada querer... Simplesmente interrompam para que o “nada” desmascare os preceitos da “jornada do herói”, preceitos que se tornaram inócuos num mundo onde nenhuma lógica ou causalidade parece se sustentar. Exponham ao ridículo os “heróis” dos grandes clássicos de outrora os fazendo confessar, em praça pública, que eles não têm mais nada a oferecer a uma nação em vias de ser dominada pelo obscurantismo. Abandonem as proposições apodíticas, os imperativos categóricos, os algoritmos, os silogismos e toda a sorte de velhacaria que impregnou o exercício dramatúrgico e poético. Visitem o fundo do Mato-Virgem, encontrem e abracem Macunaíma, calorosamente. Cuspam na cara de Odete Roitman. Tratem com escárnio todos aqueles que ultrapassam, cínica e deliberadamente, os limites entre ficção e realidade. Façam troça dos usurpadores da ficção, estes sujeitos caras-de-pau que transformam a realidade num palco macabro para destilar suas vilanias impunemente. Contra estes últimos, espalhem o espírito anarco-bufônico presente nos atos dos anti-heróis mais prestigiados que a história do teatro já criou, para que uma vez mais a ficção, por meio da paródia burlesca, ofereça a imagem patética, mas fiel, dos tempos conturbados e obscuros que vivemos. E se acaso, ainda assim, suspeitarem que a caretice reinante consegue ocultar-se nos pequenos gestos de nossos mais admiráveis bufões, é hora de lembrar o grito do glutão glorioso: – “Patafísica ou morte!”. 
Imundices
É tempo de bufonaria. Quem me lembra desta possibilidade de acesso aos acontecimentos mais repugnantes que temos testemunhado no cenário político brasileiro dos últimos anos é a montagem teatral I(MUNDO) UBU, uma adaptação da obra “Ubu Rei” de Alfred Jarry, realizada pelo Grupo Imundas. A montagem arrola pra si a responsabilidade do debate político da conjuntura nacional de nosso país, e o faz por meio de uma encenação corajosa e despudorada, sem se importar ou investir tempo na fabulação de uma paródia farsesca. Nada se sobrepõe ao desejo de problematizar um Brasil atravessado por questões graves, sejam elas questões políticas, éticas, sociais, jurídicas, financeiras e/ou religiosas. Nem mesmo a dramaturgia de Jarry é poupada: a adaptação coloca sua ênfase no roteiro de ações dramatúrgicas, transformando-o numa espécie de canovaccio no qual as personagens Pai Ubu e Mãe Ubu são os motores dos acontecimentos.     
Movendo-se pelo ideário de uma Patafísica – que procurei esboçar na abertura desta crítica – a montagem trabalha, sem melindres, com o que a realidade tem oferecido. Pai Ubu e Mãe Ubu, por esta via, são exercitados como máscaras sociais que são compartilhadas por todo o elenco ao longo da apresentação. Não sendo trabalhadas como papeis fixos, elas – as máscaras “Pai Ubu” e “Mãe Ubu” – se movem indistintamente de atuante para atuante revelando-me, assim, a natureza “Ubu” de todos nós. Uma pista importante que talvez nos leve a constatar um dos motivos de tolerarmos passivamente o comportamento inescrupuloso dos agentes públicos do mais alto escalão da república: o jeitinho Ubu de ser brasileiro – na pior acepção Ubu de ser.  
 A dramaturgia que o Imundas nos apresenta segue a mesma perspectiva de apropriação da realidade e não se preocupa com nenhum tipo de velamento dos acontecimentos mostrados. Desse modo, muito apropriadamente eles nos dizem que a “A ração humana é do Doria”. Não se trata de uma paródia de algum governante de uma terra distante, mas sim o prefeito João Doria, citado textualmente para nos lembrar, do modo mais claro e objetivo possível, do controverso programa de alimentação para os pobres, proposto pela prefeitura de São Paulo. O mesmo se dá todas as vezes que a montagem dialoga com outros fatos reais – e não são poucos.
O perigo neste tipo de abordagem é transformar a montagem teatral num panfleto político descarado, repleto de clichês com verniz progressista, mas que se limita a ser a mais rasa propaganda ideológica. Assisti desconfiado aos primeiros dez minutos de imundices e tudo parecia caminhar exatamente para este lugar. As atuações, embora fundadas na caricatura, reforçavam minha desconfiança, pois pareciam repetir os mesmo clichês de sempre, tendendo pro exagero irresponsável. Cheguei a pensar se tratar de mais uma montagem teatral onde o elenco tenta ser engraçadinho a cada minuto de atuação.
No entanto, passada esta minha primeira impressão, a montagem se impõe de modo vigoroso, pois em nenhum momento me deixa esquecer o seu propósito maior: a crítica desvelada e escrachada ao Brasil que se desmancha num mar de lama e sangue. As atuações escrachadas, na medida em que reproduzem fatos reais do nosso cotidiano político encontram, portanto, sua razão de ser exatamente no escracho. Imediatamente me percebi diante da imundice que nos assola. Como retratar poeticamente tamanha imundice? A montagem responde com simplicidade, conjugando os verbos no presente do indicativo: escrachar, debochar, zombar, troçar, escarnecer, caçoar, achincalhar, ridicularizar... E se há excessos, eles não se encontram nos atuantes, mas, pra nossa tragédia social, nas situações que retratam. Aliás, penso ser importante registrar que os atuantes lidam muito bem com a tentação de fazer piadinhas das situações retratadas. Demonstram, com isso, maturidade e consciência crítica ao não desviar a atenção – a deles e a minha – para a capacidade de improvisar gracejos inconseqüentes. E o mérito aqui merece ser compartilhado com a direção da montagem que nos entrega uma obra com assinatura e objetivo precisos, suplantando ou sabendo lidar muito bem, ao que me parece, com a força dos egos e vaidades inerentes a todo artista.
Destaco, no entanto, minha discordância com a interpretação política que a montagem adota. A adaptação da obra de Jarry nos mostra Pai Ubu e Mãe Ubu na perspectiva que corrobora com a tese do “golpe parlamentar” que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Insisto que esta tese é falaciosa e não passa de uma peça de publicidade barata elaborada pelos marketeiros petistas. Lula, Dilma, José Dirceu, José Genuíno, Aloizio Mercadante e toda a alta cúpula do Partido dos Trabalhadores sempre teve conhecimento do jogo de alto risco que era a aliança com o PMDB, partido conhecido de longa data por sua política de “balcão de negócios”. Sabiam o significado de apertar a mão de Michel Temer, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Geddel Vieria Lima, Eduardo Cunha e outras grandes raposas da nação. Aceitaram o jogo sórdido do “toma lá da cá” dos “trezentos picaretas” do Congresso Nacional. Aceitaram colocar o “Michelzinho” como vice-presidente nas eleições de 2010 e 2014. E tudo isso em nome de um projeto político para nação? Não! Em nome de um projeto de poder. Em nome deste projeto de poder desenvolveram, sem nenhum escrúpulo, o jogo sórdido da politicagem nacional. Deitaram-se com os porcos, chafurdaram sem nenhuma cerimônia até o fim da festa. Fizeram o jogo pérfido de um parlamento que pouco ou nada tem haver com os ideias republicanos. Assim, a tese do “golpe parlamentar” é nobre demais e completamente descontextualizada da história e da realidade dessa gente inescrupulosa que, em nome da república, só pensa na manutenção do poder, a qualquer custo.
Tenho dificuldade, portanto, em acompanhar a leitura proposta pela montagem que dialoga com a realidade política do país por este viés que considero equivocado. E embora assuma esta perspectiva que leva a tese do “golpe parlamentar”, ressalto que a montagem não incorre na reprodução das palavras de ordem – “Fora Fora”, por exemplo – tão desgastadas e esvaziadas de sentido e valor. Isso é curioso e animador, pois demonstra novamente maturidade e seriedade ao abordar a grave situação do país.  
Compartilho uma última impressão sobre a montagem: como toda boa bufonaria, a montagem encontra-se afinada para desenvolver seu jogo com as praças e ruas de nossa cidade. A visualidade e vitalidade da encenação, assim como a energia vibrante e a desenvoltura consistente do elenco permitem – se a equipe assim o desejar – uma experiência em teatro de rua. Obviamente que se isso vier a se tornar o desejo do Imundas, será necessário um período de adaptação para as especificidades da linguagem de rua – o jogo com o público na rua exige tempo, energia e desenvoltura diferenciados, pois é necessário saber lidar com as intempéries próprias do local e público presente. Mas o principal elemento a montagem já possui: o caráter de uma ação sociopolítica provocativa, como um genuíno Teatro de Agit-Prop.
É uma satisfação inestimável ver o Imundas estreando nos palcos da cidade no momento da ofensiva ultraconservadora que invade o país. Em tempos de MBL, da Bancada BBB – Boi, Bala e Bíblia – e dos discursos de ódio, o Imundas nos saúda com sua Patafísica mais que irreverente: NECESSÁRIA!     

Evoé Imundas.  

Fica Técnica:
Montagem Teatral:
I(MUNDO) UBU
Grupo Imundas
As Imundas da cena:
Arthur santos, Bernard Freire, Loba Rodrigues, Enoque Paulino,
Evy Loiola, Filipe Marques, Kayo Conká, Ruber Sarmento,
Sandrinha Wellem, Thamires Costa.
Trilha:
Aj Takashi e Jimmy Góes.
Direção:
Marcelo Andrade
Assistente de Direção:
Bruno Rangel.
Fotos:
Kauê Barp, Laércio Esteves.
Teaser:
Paulo Evander.
Apoio:
Fórum Landi, Zecas Coletivo de Teatro,
Dirigível Coletivo de Teatro, Notáveis Clown,

Os Varisteiros, João Ribeiro.

sábado, 25 de novembro de 2017

Terra Seca, Gente Seca. E o Rio... – Por Edson Fernando

Montagem teatral: A Casa do Rio, Grupo Gruta de Teatro.
Autor da crítica: Edson Fernando, Ator diretor e coordenador do projeto TRIBUNA DO CRETINO.

Preamar: Elas já se encontram na casa quando chegamos. Passeiam inquietamente pelos cômodos, como se esperassem por alguém ou por algo muito importante que talvez esteja prestes a acontecer. A mais velha, de cabeça branca, carrega uma gravidade serena no semblante; serenidade de quem soube cultivar o pote de barro que abriga a sabedoria aquosa de uma geração inteira. A do meio, de vestido vermelho, trás nos passos o peso da maturidade atravessado por memórias traumáticas, experiências de rachar o pote da mais resistente argila que se possa imaginar. A mais nova, de tomara que caia, embora ostente a vitalidade e impaciência, próprios da juventude, parece harmonizar em si as energias, angústias e expectativas das outras irmãs; o pote encontra-se de modo iminente sobre sua cabeça e pouco há a se fazer para mudar esta situação. 
A mesa, revestida de tolha de tecido florido, permite-lhes o encontro rotineiro para as trocas. Reúnem-se ali, ao centro da casa-cozinha-sala, acomodadas nos seus banquinhos de madeira crua. A conversa, em tom de solilóquio-solipsista, raramente se reverbera na troca de olhares entre elas. Fitam o infinito a sua frente, mas não com o desejo de repousar os olhos na solidão ou no vazio, e sim com o propósito de me encontrar na outra margem do rio que nos separa. E me encontra sempre, por mais que eu me recuse a permanecer olhando-as de frente. O olhar encantado das irmãs-matintas que são (?), exerce influência sobre mim, enleva a pele, enfeitiça e paralisa o movimento das sombras platônicas que ainda povoam a gruta de ideias constituída culturalmente em minha cabeça. Como flechas enfeitiçadas, suas palavras cortam o ar, atravessam o rio, rompem as paredes – a quarta, sobretudo – e conduzem meu olhar para o espelho d’água turvo que nos separa-cerca.       
A natureza tem seus truques e quis ela que nosso espelho d’água fosse feito por águas barrentas, cujo reflexo não revelasse de modo imediato e límpido nossa imagem refletida. Talvez uma precaução contra o possível narcisismo que poderia se desenvolver por estas paragens. Então, olho, mas não me vejo no rio, não me reconheço imediatamente neste espelho mágico capaz de revelar uma porção significativa do que sou ou do que me tornei. “– Preciso me umedecer nestas águas barrentas” é a conclusão mais dura que as três habitantes da casa me fazem perceber. Tornei-me uma pessoa seca, numa terra, paradoxalmente, seca. É pelo olhar e pelas palavras encantadas das três pajés (?) que percebo, então, esse ardil estabelecido neste lugar de abundante água, com gente de natureza seca, como eu.
E, no entanto, não basta chegar a esta constatação. Elas desejam mais. Como se quisessem me fazer enxergar com outros olhos, colocar em ebulição a água que existe em mim. O aprendizado, então, vem sob forma de mnemósines. A janela-portal, ao fundo, permite o miraculoso lapso espaço-temporal para que elas revivam suas reminiscências de família. E no ato extraordinário de furtar o tempo presente para me fazer aprender com o passado – seja com a brincadeira de transformar a toalha de mesa em boi bumba, seja com as rezas e benzedeiras pra curar cobreiro – sou levado à gruta – não platônica – de minhas pequenas lembranças.      
Vazante: Tal como a casa do rio das irmãs-curandeiras (?), nosso assoalho era de tábuas, com abundantes e generosas frestas que permitiam ver o alagado que corria por baixo. A vila no bairro do Jurunas, de minha infância na década de 80, era completamente tomada por este cenário: casas de madeira construídas por sobre o igapó nas proximidades do rio Guamá. Era divertido deitar de barriga pra baixo e espiar, pelas frestas, as coisas que navegavam por baixo da casa: cabeças de boneca, sacos plásticos, tufos de mato, pedaços de paus, latas de óleo, leite ninho... A água, que por ali passava, brincava de se aproximar e se afastar do assoalho. Havia dias em que a água estava tomada pela lama escura e não dava pra identificar os objetos. Então, eu e meu irmão mais novo, amarrávamos um imã num pedaço de fio, enfiávamos por entre as gretas das tábuas e disputávamos pra ver quem pescava mais moedas de cruzeiro. Às vezes a pesca era tão boa que até dava pra interar e comprar dois chopes de ki-suco de uva. Mas na maioria das vezes valia mesmo só pela expectativa de pescar algo inusitado naquele rio que passava debaixo de casa.
Tal como acontece na casa do rio das irmãs-assombrações (?), era comum faltar luz em casa. Eu e meus irmãos reagíamos imediatamente com medo e apreensão das coisas que poderiam acontecer no escuro; meus pais, por sua vez, ficavam indignados com a situação e temiam mais os vivos do que as assombrações. Corríamos pra procurar os tocos de vela que ficavam guardados, segundo meu pai, “em cima do petisqueiro”. Três eram acesas, no máximo, e ficavam afixadas em cima da lata de leite, e dos potes de arroz e feijão. Quando meus pais se distraiam, brincávamos de passar o dedo na chama da vela; me sentia o super-homem fazendo isso sem queimar o dedo. Depois vinham as brincadeiras de criar sombras animadas que se formavam na parede. Invariavelmente isso acabava levando as histórias de assombrações que íamos criando na hora. Quando a luz voltava era possível ouvir os gritos de comemoração da vizinhança inteira – coisas do tipo: gol da seleção brasileira numa copa do mundo. Mas ainda aproveitamos uma última brincadeira com as velas que ainda estavam acesas: reuníamos ao seu redor, catávamos o “parabéns pra você” e, juntos, assoprávamos as velas. Era demais.
Tal como acontece na casa do rio, eu vivia bichado com males que nenhum médico conseguia diagnosticar. Meu principal problema, segundo atestava a sabedoria milenar de dona Guita, era “peito aberto”. Eu ficava tomado por uma dificuldade de realizar uma respiração profunda, me cansava muito facilmente perdendo o fôlego para realizar pequenas peraltices de moleque, como brincar de pira mãe ou de bandeirinha. Mamãe me tomava pelas mãos e me levava à humilde casa de madeira, de apenas dois cômodos e de telhado de palha, da prestigiada curandeira. Por vezes, aguardávamos na sala enquanto ela realizava suas rezas em outros pacientes. Isso me deixava muito tenso, pois era possível escutar as ladainhas que ela entoava no cômodo ao lado, pois a divisória era simplesmente uma cortina de tecido florido. Chegada minha vez eu tirava a camisa, deitava de peito pra cima e recebia as rezas de dona Guita. Enquanto rezava, ela levava seu polegar direito contra o meu corpo e ia fazendo o sinal da cruz, principalmente no meu peito – isso me dava uma agonia atroz e até hoje sofro quando alguém tenta tocar no meu plexo solar. Em seguida, ela depositava uma moeda de cruzeiro no centro do meu peito, acendia um toco vela e a colocava sobre a moeda; cantava alguma coisa, elevava seus olhos pro céu e tapava a vela com um copo de vidro. Eu apertava a mão da mamãe e fechava os olhos morrendo de medo. Quando a chama da vela se apagava, dona Guita colocava um pedaço de emplasto sabiá no centro do meu peito e fazia as mesmas recomendações de sempre: “– Ele não pode correr e nem fazer esforço até o emplasto se descolar completamente do corpo”. Então, eu amargava algumas semanas de tédio sem poder brincar de verdade, como todo moleque do Jurunas.       
Tal como acontece na casa do rio, chovia bastante dentro e fora da minha casa, nos meus tempos de garoto. Os pingos de chuva castigavam as telhas de barro do nosso telhado, principalmente em nosso período mais chuvoso. A casa não possuía forro e os respingos da chuva forçavam mamãe a insistir para ficarmos debaixo das sombrinhas, mesmo dentro de casa. Outro refugio era debaixo do beliche que transformávamos em cabanhinha, usando os lençóis como paredes. Dormir ouvindo o barulho da chuva no telhado, sem dúvida, tornava o sono mais gostoso. Menos pros meus pais que conseguiam enxergar a ameaça que as chuvas traziam: as águas subiam e invadiam o assoalho, indo por vezes bater bem próximo dos colchões da cama. Geladeira e fogão ficavam suspensos em pés improvisados de tijolos. A rua se transformava num verdadeiro rio, se reencontrava com sua ancestralidade. O que me cabia fazer era aproveitar para brincar com barquinhos de papel. Os moleques da rua tinham brincadeiras bem menos inocentes: pescavam mussum para decepar suas cabeças com terçados, pelo simples prazer de vê-los se debaterem em espasmos até a morte. Aquela situação de “alagamento”, no entanto, não era vista por meus pais e vizinhos, pelo olhar inocente (?) e lúdico de uma criança. As águas eram vistas como um tormento que precisava ser superado. A vila começou a ser aterrada. Dezenas de carradas de aterro foram usadas para elevar o nível da vila ao da pista. Começou uma corrida entre os vizinhos para aterrar, o mais rápido possível, o terreno debaixo de suas casas, pois ao elevar o nível do chão da vila as águas, inevitavelmente, escorriam pra baixo delas. Nossa casa foi uma das últimas a conseguir erradicar esse problema por completo, levando aproximadamente uma década – e quase uma dezena de carradas de aterro – para conseguir expulsar todo aquele rio que nos cercava. Por fim, tornei-me um ser que lutou desesperadamente contra as águas. Queria o terreno seco. Desejei a terra seca, o piso de concreto com lajotas, as paredes de tijolo rebocado substituindo a madeira encharcada das tábuas podres que precisam ser substituídas com bastante freqüência. Passei a sonhar com uma laje que me protegesse dos respingos da chuva. Queria, a qualquer custo, alcançar o sonho de consumo de todo Jurunense àquela altura, isto é, queria tirar o pé da água. E isso pode ter custado muito caro pra um povo que não se deu conta de lutar contra sua própria natureza.
O Barco: A casa do rio, montagem teatral que comemora os cinqüenta anos do Grupo Gruta de Teatro, proporciona um aprendizado estético-poético inestimável para uma cidade como Belém do Pará, acostumada a dar as costas para o rio e a culpar a chuva por suas mazelas sociais. Como um barco navegando por nossa ancestralidade liquida, a montagem nos provoca a olhar para as águas turvas do rio Guamá e reconhecer nelas, o espelho genuíno capaz de nos mostrar sem véus. No entanto, não é um exercício simples de se fazer, pois requer um ajuste de percepção que, talvez, somente a arte tenha capacidade de proporcionar. Um dos problemas a enfrentar é saber o quanto nossa percepção já foi assoreada, vindo a repousar nossas expectativas no porto seguro e não no fluxo continuo do rio.
Talvez exatamente por isso, a montagem se estabeleça, no meu entendimento, por meio de uma encenação sensivelmente icônica que opta, com voracidade, por uma atuação predominantemente épica. A dramaturgia – também icônica – somada à atuação épica das três atrizes – Astrea Lucena, Monalisa da Paz e Waléria Costa, que faço questão de citar os nomes por reconhecer que suas trajetórias artísticas têm muito a ensinar aos que estão dispostos a fazer teatro em nossa cidade; ensinamento estético, poético, político e, sobretudo, ético – gera um potente amalgama criativo que não permite a contemplação incólume do público. Quem fala com olhar estarrecedor e nos confronta na platéia não é a personagem de uma fábula fechada, tão pouco a atuante que pretende nos provocar o efeito D, e nem a própria pessoa das atuantes. O que se apresenta aos nossos olhos são três entidades de realidade fantástica que agregam em si a potência e características mencionadas acima. Apresentam-se, portanto, a meu ver, como seres capazes de nos inquirir na atmosfera civil – sem que sua fala se confunda com um panfleto ideológico – mas também na atmosfera estética – sem se tornar entretenimento ingênuo e casual e nem incorrer em clichês popularescos ou folclóricos.
Seguinte esta perspectiva, considero, no mínimo, instigante a trama na qual as três entidades se encontram enredadas. Há entre elas a inexorável responsabilidade da transmissão dos valores do seu tempo e lugar – o pote de barro que abriga toda sabedoria de uma geração. Fiquei instigado a pensar estas entidades – a mais velha, de cabeça branca, a do meio, de vestido vermelho e a mais nova, de tomara que caia – como ícones das três últimas gerações de fazedores de teatro na cidade. Com qual delas o Gruta se identifica? Com qual delas eu me identifico? Com qual delas tantos outros grupos importantes da cidade – Grupo Cuíra, Cia Atores Contemporâneos, Grupo Palha, Cia dos Notáveis Clowns, In Bust Teatro com Bonecos, Palhaços Trovadores, Grupo Usina, Teatro de Apartamento, Grupo de Teatro Encenação Cultural do Pará, Cia Teatral Nós Outros, Trupe Nós Os Pernaltas, pra citar apenas alguns – se identificam?  
Sinceramente não sei responder estas perguntas, mas sei o quanto é importante saber quem carrega atualmente o pote, se preserva a sabedoria de luta e resistência erguida na cidade nas últimas décadas (sete pelo menos), se recolhe novos aprendizados e a quem pretende repassar a guarda futuramente. A água preciosa chamada Teatro que nele carregamos, precisa ser preservada e repassada as novas gerações. Qualquer ação que negligencie este aspecto joga com o risco de não umedecer as futuras gerações do teatro em Belém.
Preciso me umedecer pro teatro e pra vida e a montagem teatral do Gruta me arremessa esta verdade na cara, sem nenhuma cerimônia. Olho para a mais velha, de cabeça branca, e encontro nela o elemento provocador que me faz querer ser cada vez mais como ela: íntegra e intensa nas suas experiências, grave e serena com as palavras no palco e na própria vida. Ela me transmite a ideia de que é preciso se umedecer para bem envelhecer. Infelizmente nem todos envelhecem como o José Celso Martinez – com vitalidade pra luta, energia anárquica e capacidade antropofágica auto-regenerativa. Alguns envelhecem como o Luis Inácio Lula da Silva – se adaptando as condições nefastas, preterindo as convicções ideológicas e apertando a mão dos algozes de outrora.  
Contra todas as ameaças que pairam no horizonte, precisamos nos umedecer. Umedecer, a terra, o palco e a vida.  

25 de novembro de 2017.

Ficha Técnica
Montagem teatral:
A Casa do Rio
Grupo Gruta de Teatro
Texto:
Adriano Barroso
Direção:
Henrique da Paz
Elenco:
Astréa Lucena, Monalisa da Paz e Waléria Costa
Cenário:
Boris Knez e Aldo Paz
Figurino:
Jeferson Cecim
Maquiagem:
Mariana Paz Barroso
Cabelos:
Germana Chalu
Iluminação:
Sonia Lopes
Assistente de iluminação:
John Rente.
Produção:
Belle Paiva Tati Brito

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Mais flores, por favor! – Por Edson Fernando

Montagem Teatral: Falando sobre flores
Autor da crítica: Ator e Diretor Teatral; Coordenador do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Considerações em terceira pessoa
Montagens teatrais que assumem como tarefa abordar questões de caráter histórico são extremamente relevantes. Sabemos que o Teatro não precisa estar a serviço de nada para validar seu discurso e/ou linguagem, mas quando consegue estabelecer relações profícuas com outras áreas de conhecimento, torna sua existência ainda mais interessante. Os artistas que tomam esta tarefa pra si, no entanto, precisam garantir o equilíbrio e harmonia dos elementos incomuns ao jogo estético, para que eles não se transformem em ruídos estrondosos capazes de comprometer a natureza específica da própria obra artística. Quando isto ocorre, invariavelmente, as chances do Teatro se tornar uma ferramenta ou um panfleto a serviço de algo, aumentam exponencialmente.   
A montagem teatral “Falando sobre flores” assume esta tarefa ao eleger como eixo central de sua dramaturgia e encenação o período da ditadura militar brasileira, ocorrido de 1964 a 1985. São dois atuantes em cena, Demi Araujo e Renan Coelho, nos confrontando diretamente com as personas de um militar e de um membro do movimento da resistência política armada, respectivamente. A partir destes personagens antagônicos a montagem tenta zelar, precariamente, por uma abordagem que nos possibilite avaliar os pontos positivos e negativos deste período da história brasileira. A tentativa é “precária”, pois opta nos mostrar o confronto a partir da uma cela do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social –, transformando rápida e decisivamente os antagonistas em torturador e torturado, respectivamente. E ao fazê-lo, induz nosso olhar para uma empatia com este último, pois o apresenta numa situação de co-relação de forças desigual, em condições miseráveis e exposto a atos humilhantes. Difícil julgar imparcialmente neste contexto.   
A montagem se estrutura, então, a partir de quadros realistas que revelam o modo de tratamento destinado aos presos políticos do “regime”. Os quadros são intercalados por depoimentos de ambos os personagens (?) que chocam seus “pontos de vista” sobre a conjuntura nacional naquele período traçando ainda, em alguns momentos, relação com o atual quadro político do país. Os depoimentos intercalando os quadros realistas permitem inferir o desejo da montagem em equacionar, de modo imparcial, dados históricos para que o espectador tire sua própria conclusão sobre o período do governo militar. Tal procedimento, no entanto, se vê comprometido exatamente pela força dramática dos quadros, pois eles, como dito anteriormente, induzem à empatia com a parte mais frágil do embate, isto é, com o torturado.    
Não fica claro também se os depoimentos intercalando os quadros são proferidos pelos atuantes – Demi e Renan – ou pelos personagens – torturador e torturado. Esta dúvida fragiliza, sobretudo, a defesa dos argumentos pró “regime militar”, pois soa falso o discurso exaltando avanços e conquistas na área da economia, saúde e educação. Assim, mais uma vez, a balança pende a favor de um posicionamento político que nos induz a reprovação da ditadura militar. Tomar partido sobre a questão não é o problema – é importante não esquecer que a imparcialidade científica, política ou filosófica é um mito –, mas isso depõe contra a montagem na medida em que a mesma deseja que o próprio espectador julgue e tire sua conclusão sobre o tema.        
Considerações em primeira pessoa
Os quadros realistas que a montagem apresenta, embora mantenham certo grau de fidelidade com os fatos históricos – e aqui se encontra um grande mérito da montagem – , não me comovem, atravessam ou me provocam a pensar sopre o tema por um lugar novo. A sensação de “mais, do mesmo” se impõe à medida que os quadros são apresentados. Talvez falte ousadia ao abordar o tema – a falta de ousadia, aliás, parece se impor a todos os setores da sociedade que seguem em estado de letargia profunda. Talvez a conjuntura do país seja tão absurdamente dramática e nefasta a ponto de arrefecer minha recepção desta obra. Ou talvez ainda eu, simplesmente, esteja projetando meus anseios e inquietações na montagem. O que posso afirmar com convicção é a minha sensação crescente de que estamos tomados por um torpor indolente que parece se alojar nas diversas e variadas tentativas de atos de resistência, de rebeldia, de insubordinação, de desobediência civil, de insurreição, de motim, de levante, de revolta, de desordem, de revolução... Tenho acreditado, cada vez mais, que estes estados ou atos de resistência devem ser testados, despudoradamente, em nossos pequenos atos cotidianos, em nossos modos de existência, em nossa arte, em nossa escrita, em nossos amores e dores. Nada pode escapar a tentativa de encontrar novamente o princípio gerador do “caos criativo”, princípio que irá embaralhar as cartas marcadas deste jogo espúrio que se tornou viver no Brasil de 2017.  
E assim, em meio ao turbilhão de incoerências que atravessamos no país, “Falando sobre flores” embora se constitua, na minha percepção, com o “mais, do mesmo”, os quadros da montagem me permitem estabelecer paralelos que se cruzam na insólita, mas não remota, possibilidade da ascensão de um novo regime ditatorial no Brasil. Neste contexto e sem me preocupar com a acusação de auto plágio apresento, portanto, a seguir, um texto que postei recentemente no Facebook, no qual reflito sobre o fantasma da intervenção militar que nos ronda novamente. É importante não esquecer que se trata de paralelos que cruzam: a montagem teatral “Falando sobre flores”, o texto intitulado “Fumaça, muita Fumaça!!!”. Deixo a cargo de leitor/espectador a tarefa de cruzá-los do modo que julgar conveniente, ou mesmo sequer cruzá-los. Desobediência é o mote.        
Fumaça, muita fumaça!!!
“Intervenção Militar Já” é o que se lê na faixa de um pequeno grupo de manifestantes que protestam ao som de “hinos patrióticos”, no ultimo domingo (22.10), na rua da Paz – ao lado do Teatro da Paz. Esta manifestação não me causou nenhum assombro. São pessoas alinhadas ao pensamento do que podemos chamar de “extrema direita”, dentro do confuso cenário político brasileiro. Na minha percepção, a manifestação arregimenta lentamente alguns simpatizantes, mas ainda recebeu a esmagadora indiferença dos que circulavam pela Praça da República. Embora não a considere inofensiva – seria muita ingenuidade de minha parte – ela não é o que me assombra e inquieta na conjuntura nacional. O que me assombra é o silêncio e apatia dos demais setores da sociedade civil diante do vilipendiamento da nação.
Não há em curso no país nenhuma reação enérgica de algum setor da sociedade civil que consiga dialogar e mobilizar os cidadãos de modo direto e simples, canalizando o sentimento de revolta e indignação, presentes na população, diante do escândalo que se transformou o nosso regime de democracia representativa alicerçada nos três poderes – executivo, legislativo e judiciário. Não conseguimos construir uma via de mobilização nacional que lute pela reconstituição do regime – uma nova Constituinte, por exemplo, formada somente por membros da sociedade civil sem vinculação com as instituições partidárias vigentes.
Ao invés disso, “grupos de poder” lutam entre si tentando extrair da miserável e degradante situação, capital político para se manter ou retornar ao poder. Se cristaliza, com o passar do tempo, o enredo nefasto que mais uma vez tentará nos vender a retórica simplista de que contra o inimigo “nazi-facista”, encarnado pela figura do deputado Jair Bolsonaro, devemos votar no “menos pior”. Nesta perspectiva se equivalem a “direita” e a “esquerda” – uso as convenções partidárias estabelecidas, sabendo que não há muita diferença no projeto de poder de ambas – e tanto faz os candidatos que despontam como adversários capazes de enfrentar e vencer Bolsonaro. Tanto faz o Dória, Ciro Gomes, Marina ou o Lula. Todos estão enredados no vil jogo de poder plutocrata que se transformou o regime democrático brasileiro.
Desse modo, na estratégia de alto risco que vem se delineando para a disputa presidencial de 2018, Bolsonaro é o adversário ideal para “direita” e “esquerda”, pois sua personalidade tragi-bulfônica constrói uma cortina de fumaça capaz de obnubilar a percepção política, arrefecendo a consciência crítica para personalidades tão ou mais controversas politicamente, tais como o atual prefeito de São Paulo, João Doria ou o ex-presidente Lula, dentre outros. O que esperar deste último, por exemplo, quando vemos na sua trajetória política fatos no mínimo inusitados como acordos políticos selados, sem nenhum pudor ideológico, com personalidades marcadamente cínicas e corruptas como Paulo Maluf, José Sarney, Jader Barbalho, Michel Temer... Luis Inácio Lula da Silva representa muito bem a escória da classe política brasileira e não tenho dúvidas que ele apertará a mão do próprio Jair Bolsonaro se julgar conveniente para seus planos políticos. E, no entanto, tentam nos fazer acreditar que há mocinhos e vilões. Votando, então, no “menos pior”, dentre aqueles, querem nos fazer acreditar que as instituições seguem em pleno funcionamento, ilibadas, autônomas, soberanas e defensoras dos direitos dos reles mortais.
Como se assombrar com um punhado de fanáticos fazendo apologia a intervenção militar quando temos uma nação inteira incapaz de exorcizar os fantasmas, espantalhos e arremedos de um regime que se diz democrático? A democracia brasileira sangra há décadas e os que fazem parte do seleto circulo do poder desejam que assim permaneça, por um motivo simples: são vampiros sedentos da nossa jugular. A retórica publicitária do golpe contra a ex-presidente Dilma só ajudou a segregar ainda mais os fronts de resistência contra os posicionamentos ultraconservadores, posto que colocou em lados diferentes “petralhas” e “coxinhas” que seguem, estupidamente, trocando farpas entre si, quando em verdade não se distinguem no projeto de poder que colocaram em prática.
E enquanto não conseguirmos ultrapassar a cortina de fumaça fúnebre acessa a partir dos escombros da democracia brasileira, Bolsonaro e os fanáticos que clamam por intervenção militar, na minha percepção, apenas adicionam o combustível de alta periculosidade no cenário de guerra que já vivemos há muito tempo.
Mais flores...
Quem julga as flores por sua aparente doçura e candura se esquece do perfume do Louro-da-Montanha, da Tasneirinha, do Veratrum, da Cerbera Odollam, da Sanguinaria Canadesis, da Adenium Obesum e da Oenanthe Crocata. Exorto todas estas flores oferecendo-as aos que insistem em se manter inertes. Mais flores, por favor.
 02 de Novembro de 2017.

Montagem teatral:
Falando Sobre Flores
Direção:
Karine Jansen
Dramaturgia:
Renan Coelho
Atores:
Demi Araújo e Renan Coelho
Iluminação:
Luciana Porto
Sonoplastia:
Jairo dos Anjos
Aderecista:

João Calado

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Terra, fogo, água e ar – Por Leonel Ferreira.

Pachiculimba
Criação: Usina
Autoria da crítica: Leonel Ferreira. Ator, Diretor e Educador

Já acompanho o Usina desde o final da década de 1980 quando na Praça da República apresentavam o espetáculo “Farsas Medievais”.  Assisti quase todos os espetáculos produzidos pelo grupo, tanto os de salas convencionais como os de rua e porão. O Usina em mais de seus 20 anos de fazer teatral tem na pesquisa, na experimentação cênica e no discurso político uma das suas marcas mais potentes. 
Alberto Silva Neto assina as direções dos espetáculos “Tambor de Água”, “Paresquei”, “Eutanázio e o princípio do mundo e “Solos de Marajó” onde se percebe o exercício da construção de uma dramaturgia centrada no homem amazônico, em suas memórias e costumes. Em “Solos de Marajó” surge a parceria com Claudio Barros, ator oriundo dos grupos Experiência e Cuíra. Falo parceria porque somente quem já dirigiu um monólogo talvez compreenda a dimensão desta palavra, é um exercício de extrema generosidade. Assim deveria ser as relações entre as pessoas em todas as esferas, mas...
Ainda bem que existe o fazer teatral de algumas pessoas que generosamente abrem sua morada, sala, quintal para compartilhar os seus tesouros. “Pachiculimba”, último trabalho apresentado pelo Usina, repete a parceria entre Alberto Silva Neto e Claudio Barros no que chamo de exercício pleno dos sentidos e da magnitude do saber tradicional do homem ligado a terra e aos seus mistérios. Não se trata de um espetáculo, não há release a respeito do que se vai assistir, não há um teatro, praça, porão como já se viu em montagens anteriores do grupo, mas sim o quintal da agradável casa de Alberto Silva Neto, na Ilha de Mosqueiro, na praia do Paraíso. Ali a natureza impera e mesmo com todo o larelare de quem vai chegando na casa de um amigo, logo o ambiente fala mais alto, os passarinhos, como que ensaiados para aquele evento dão o tom do lugar. Ali é um lugar raro, que já foi comum, mas hoje é santuário.
O quintal com suas árvores e plantas, o céu num azul esplêndido de outubro amazônico, os pássaros (mais uma vez), o som do vento compõem o cenário daquele ambiente. Não precisa de mais nada, de nenhum efeito ou truque cenográfico. Nada é mais perfeito que a natureza e rente a terra em bancos e esteiras o público se acomoda para assistir a performance de Claudio Barros. Mas que personagem é ele? Uma entidade espiritual? Um monge? Um xamã? Não interessa! O que o importa é o sentido das suas palavras ditas de maneira gutural e pausadamente. Ele traz um carrinho de mão com tapetes coloridos feitos em tricô. Há também um terçado e um vaso com uma planta num vaso. Descalço ele pisa o chão de barro daquele quintal. Há um peso em cada frase dita por ele, mas também há beleza e suavidade... Claudio Melo, faz uma delicada participação produzindo efeitos sonoros e percussivos que dialogam com a encenação.
Num determinado momento o que se houve é apenas os sons do lugar e Claudio Barros reage aos sons de passarinhos, cães, cigarras numa dança pessoal que não irá se repetir no dia seguinte. As cigarras cantam e anunciam o fim de mais um dia e início de mais uma noite. O sol vai se pondo e o breu vai tomando conta do quintal. Então uma fogueira é acesa por Claudio Barros e fazendo uso de uma linguagem inventada ou dialeto indígena, não importa, o que se vê é um homem lamentando, chorando a perda de algo que fica na imaginação de quem assiste seu drama. Por quem chora o pobre homem? A vontade que dá e de levantar do assento e acolher num abraço seu corpo miúdo. Num instante tudo se transforma em fúria, Claudio Barros, agora um xamã (?), bate o terçado contra o carro de mão e o choque entre os metais sublinham a força daquele momento. Não há alegria na dor, não há beleza na perda. Me lembrei de Tuira Kayapó com seu terçado que lambeu a cara do presidente da Eletronorte para impedir a construção da usina de Belo Monte em 1989... Os fatos se repetem, o drama se repete e vai se perpetuando diante da indiferença... A escuridão da noite reforça a mensagem.
Entre o arvoredo e no breu da noite, diante de uma luz fraca de um lampião, o Xamã nos fala de um apocalipse e dos fim dos tempos na visão cosmogônica do velho índio. A fala é um trecho do livro A QUEDA DO CÉU, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

O valor de nossa floresta é muito alto e muito pesado. Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores, frutos, animais e peixes. [...] Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob suas águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro poderá devolver aos espíritos o valor de seus mortos (355)[1].

        Ao público é servido um caldo de peixe em cuias com gravuras indígenas e por fim o Xamã se recolhe. De onde estou ouço apenas o som da água caindo e se espalhando pelo quintal.

Pachiculimba
Grupo Usina
Local
Ilha de Mosqueiro – Praia do Paraíso
Com Claudio Barros e Claudio Melo
Direção
Alberto Silva Neto
Sonoridades
Claudio Melo
Visualidades
Claudio Rego de Miranda
Corporeidades
Valéria Andrade






[1] Marina Pereira Novo. Revista de Antropologia da UFSCar. Jul./dez.2016:167-170